Aconteceu no JJ Cabeleireiros

Homens também doam cabelo para a Rapunzel Solidária

O JJ Cabeleireiros sempre gostou de participar de ações sociais. Seja para auxiliar idosos, crianças, animais e pessoas em tratamento contra o câncer.

A Rapunzel Solidária é uma ONG que arrecada cabelos, para a confecção de perucas, que são entregues a mulheres, homens e crianças carentes, que enfrentam o longo e doloroso tratamento de químio e radioterapia.

Parceiros de primeira hora da Rapunzel, esta ação tem nos trazido coisas tão boas, relatos tão comoventes e pessoas com um grau de espiritualidade e desapego, que nos surpreende a cada dia. é o caso do Felipe Peroni.

O Felipe nos procurou, fez o corte e a sua doação e depois postou esse relato, que nós reescrevemos abaixo, na íntegra.

Felipe, fica aqui o nosso agradecimento, o nosso respeito e admiração pela sua iniciativa e pela pessoa que você é. Parabéns, o mundo precisa de gente como você!!

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Felipe Peroni

“Hoje é o aniversário da minha avó. Ela faria 85 anos. Ela faleceu em 13 de fevereiro do ano passado, depois de uma longa batalha contra o câncer. Eu vou contar uma história que poucos sabem sobre este período. Na época eu estava trabalhando e não tive direito às férias. Mesmo assim eu consegui uma folga de uma semana no trabalho e fui para Santa Maria ficar com ela.

Foi uma semana muito dura, mas também feliz. Eu fiquei o máximo que pude ao lado dela e nós rimos e conversamos. Mesmo muito doente, ela mostrava uma animação e uma vontade de viver que desmentia todos os maus prognósticos dos médicos. Assim, entre uma risada e uma lágrima, os dias daquela semana foram passando, um a um. No último dia da minha folga ela ficou tristonha por eu ter que ir embora. Eu também fiquei.

Para tentar animar ela um pouco eu inventei que tinha um compromisso, saí do hospital e, sem falar nada, cortei meu cabelo bem curto, do jeito que ela gostava. Quando eu voltei para o hospital de surpresa, com o cabelo curto, ela abriu um baita sorriso, me abraçou e me beijou, e passou a tarde falando, animada, sobre como meu cabelo tinha ficado bonito. No outro dia de manhã eu fui ao hospital para dar meu último tchau antes de voltar pra SP. Ela ainda estava falando do meu cabelo e comentando com as enfermeiras como ele tinha ficado bonito. Eu cheguei perto da cama dela, dei o abraço mais demorado da minha vida, um beijo e disse tchau. Quatro dias depois ela morreu.

Eu não cortei mais o meu cabelo. No início eu não via nenhum motivo especial pra isso, era preguiça e só. Mas hoje eu percebo que de alguma maneira eu queria preservar a única (e última) coisa que eu pude fazer para deixar minha avó feliz. Este ano não foi fácil. A morte dela me fez enfrentar as escolhas que eu fiz ao longo da vida. Quando eu saí de Santa Maria para vir morar em SP atrás do meu sonho eu perdi os últimos anos de vida dela. Não é uma questão de certo ou errado, de eu me sentir culpado ou não, ou de pensar se valeu a pena ou não. É uma questão de aceitar que quando eu escolhi um caminho eu abandonei o outro. E minha escolha teve um preço e eu precisei pagar ele. Nenhum pensamento subjetivo sobre isto vai mudar o fato objetivo de que foi um preço alto e muito dolorido.

Porém, como é de se esperar, o tempo passa. E a cada dia a dor que eu sentia e sinto é menos desespero e mais saudade. Menos a dor que nos mata e anula nossa vontade de viver e mais aquela que faz valer a pena ter vivido, mesmo que seja só para doer depois. Hoje eu tento pensar nas coisas da minha vida que ela não viu e como ela ficaria feliz de ter visto, desde as mais importantes, como o fato de eu ter um emprego, até as mais banais, como de eu ter comido uma sopa quente em um dia frio. Foi pensando assim que eu descobri que ainda havia algo que eu poderia fazer por ela. Hoje, no aniversário dela, quando ela completaria 85 anos, eu achei um salão que corta cabelos para uma ONG que faz perucas para pessoas que lutam contra o câncer. Fui lá e pedi para cortar meu cabelo bem curto, do jeito que ela gostava. É o único presente que eu ainda posso dar para ela, e eu penso que se isto representar algo de bom para alguém talvez eu consiga fazer minha avó feliz uma última vez.

Eu compartilho essa história para dividir não só minha dor, mas também o que eu aprendi durante este ano que passou e que eu julgo como verdade: que não há dor no mundo capaz de anular nossa capacidade de fazer coisas boas e certas. Que a dor que nos atinge não deve fazer com que a gente se retire e abandone o mundo, ao contrário, que ela nos inspire a fazer sempre atos benéficos, por menores que sejam. Que não há nenhum desenlace trágico que possa acontecer na história da nossa vida que nós, através de um esforço narrativo, não possamos transformar em um final se não feliz, no mínimo digno.

Feliz aniversário, vó.

PS: A ONG se chama Rapunzel Solidária, e o salão, que não cobrou nada pelo corte, foi o JJ Cabeleireiros.”

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